sábado, janeiro 20, 2007

Aula 11 – Mas afinal quem informa o mundo?


Esta questão foi levantada há uns anos atrás quando Manuel Maria Carrilho no seu livro Sob o Signo da Verdade acusou uma agência de comunicação de renome – Cunha Vaz & Associados – de lhe ter oferecido os seus serviços (estes incluíam a compra de jornalistas, aquando da sua corrida à presidência da Câmara de Lisboa. Com esta acusação surgiram novas questões como: Que papel têm estas empresas que contactam todos os dias com os jornalistas? São "as" novas fontes? Influenciam os jornalistas a ponto de os comprar? Como é feita essa gestão de interesses contraditórios?

Este facto ganhou “corpo” quando Vasco Ribeiro ao realizar a sua tese de mestrado verificou, num estudo que fez a quatro jornais nacionais, que a maioria das notícias publicadas não derivavam dos jornalistas mas sim de agências, assessorias e gabinetes de informação também chamadas de “fontes organizadas de informação”.
Este estudo só
“confirma uma perigosa tendência dos órgãos de Comunicação Social para se converterem em «receptores passivos» de informação, abandonando progressivamente a sua vocação de mediadores directos entre as fontes noticiosas e os seus leitores”.

E não é que é mesmo assim. Vejamos o jornalista, hoje em dia, recorre muito a estas agências de informação para obter uma notícia e sabendo isso estas têm evoluído na sua forma de redacção dos comunicados para que estes se assemelhem a notícias ou são mesmo notícias disfarçadas de comunicado, tal como o autor da tese diz
“a assessoria de imprensa tem vindo, progressivamente, a apurar as suas técnicas e ferramentas de trabalho".Por isso a maioria dos assessores são ex-jornalistas, quem melhor do que eles para perceber como funciona este mundo? As notícias são criadas de modo a achar “algo adequado para cada jornal ou revista que quer que se publique a história” (in, Lloyd, Herbert; Lloyd, Peter, Relações Públicas – As técnicas de comunicação no desenvolvimento da empresa, 1988, Presença, Lisboa, p. 129).
O problema é que ao contrário da imprensa as agências têm vindo a adaptar-se às alterações nos jornais e fazem-no de forma mais rápida, por isso os jornalistas são um alvo vulnerável a estas artimanhas das “fontes sofisticadas”.



Ambos têm o mesmo interesse o de publicar uma notícia por isso o jornalista pode ter como fonte de informação um assessor mas “jamais deve assumir como inquestionável o material informativo que recebe das suas mãos (…), a matéria informativa recebida pelo jornalista pode e se calhar deve ser confirmada junto das fontes estranhas ao primeiro «informador»”, in Lampreia,J. Martins, A assessoria de imprensa nas Relações Públicas, 1999, Europa América, Mem Martins, p. 67).

Então está ou não o jornalista nas mãos do assessor?

Se tivermos como certo que a função de um jornalista é um “
simples técnico de comunicação, um transmissor de mensagens pretensamente neutro e objectivo, cuja tarefa se reduz à intermediação passiva entre as fontes (dominadas por quem tem o poder de produzir informação) e as audiências, obedecendo aos conteúdos e aos formatos ditados pelo mercado”. Então os cerca de 60% existem porque é essa a função do jornalista.
Mas se pelo contrário o jornalista for visto como um
“profissional consciente do seu poder (real e potencial) e disposto a usá-lo bem, que se distingue do mero transmissor de mensagens não porque mistura a opinião com a informação ou se desdobra num protagonismo que o coloca no centro da notícia, mas porque procura seleccionar, enquadrar e apresentar a informação de modo a que esta constitua factor de enriquecimento e de reflexão, entendida como um bem social e não como um produto comercial”. Ao reconhecer e valorizar a responsabilidade a que a profissão lhe exige irá contribuir para que se criem condições capazes de transformar o jornalismo e a informação, assim talvez se consiga alterar esta realidade e o jornalista deixe de estar nas mãos do assessor.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Aula 10 - Vai e vem ou Vai e Não Voltes?

Nos dias que correm, um jornalista pode, sempre que o entender, ser assessor de um político (por exemplo) e no dia seguinte voltar a exercer o cargo de jornalista voltando a trabalhar nas temáticas relacionadas com o seu cargo anterior (Ver neste link um caso real deste vai-e-vem). Isto acontece porque as Relações Públicas não estão regulamentadas no nosso país, logo não há impedimentos a este tipo de comportamento.
Este vai-e-vem suscita muitas questões do ponto de vista ético.
Citação/Link: “Há que ter a coragem necessária paradeclarar a tolerância zero para esta promiscuidade permanente entre o jornalismo e uma qualquer central de informação, seja ela governamental, da publicidade ou outra”, José Mário Costa, Jornalista.

Esta nova proposta de lei do Estatuto do Jornalista levanta a questão de que ele pode não estar a trabalhar na área mas pode fornecer dados a um colega para que este faça o trabalho no seu lugar, assim nunca teria contacto directo com a área que trabalhava anteriormente ao ser assessor.
O jornalista embora
deixe de exercer o seu cargo por 6 meses nesse curto espaço de tempo não irá perder todos os seus contactos, no entanto será que se se alargasse o período de nojo teria melhores resultados?
No meu entender só faria sentido se o jornalista
nunca voltasse para a mesma área que trabalhava anteriormente. No entanto isto não implica que o jornalista seja isento e não dê informação aos colegas de profissão, mas sempre era um maior entrave a uma ligação mais directa com o assunto em si, já envolvia uma confiança do protagonista no outro jornalista que não o seu ex-assessor.
"Por que motivo recorrem os governos a jornalistas para funções que, à primeira vista, seriam destinadas a especialistas em comunicação institucional, publicidade ou marketing politico? A questão não apela a grandes divagações teóricas: os jornalistas estão, naturalmente, inseridos na rede comunitária das amizades e cumplicidades das redacções. Com maior facilidade abrem portas fechadas a intrusos ou vencem resistências à aceitação das agendas governamentais"-Mário Mesquita, A receita holandesa para ‘jornalistas no Governo’, Público, 7 de Novembro de 2004.
O próprio público também não vê de bons olhos esta situação, pois quem garante que a notícia que saiu num jornal se deve a esta empresa ter no seu leque de trabalhadores um ex-assessor de um partido político ou de um clube de futebol e como tal irá favorecer ou não de acordo com a vontade do protagonista em questão.
“Quando os meios perdem a credibilidade,
que é a sua principal arma,
perdem a confiança do público”. Ignacio Ramonet

Outro factor a ter em conta é que, com a presente lei ou com a nova proposta, o jornalista pode a qualquer altura “saltar” de um lado para o outro sem muitas preocupações. Sempre que achar que precisa de mais uns trocos lá vai o jornalista fazer de assessor. A vida não está fácil!
Se pelo contrário a lei previsse que o jornalista que se tornar assessor nunca mais exerça o cargo anterior iria contribuir para uma maior distinção entre as profissões, sem contar que os jornalistas iriam pensar muito bem se realmente queriam abandonar o actual cargo e passar a serem assessores para toda a vida. Isto com certeza traria inúmeras vantagens no que respeita a isenção pois uma vez assessor sempre assessor e a informação já não seria espalhada a não ser que tivesse real valor para o protagonista.
Sem contar que um licenciado em RP já poderia
exercer o seu cargo sem temer que este fosse "roubado" por um jornalista.